Pela primeira vez na UFU, pesquisadores realizam transferência embrionária de animais de laboratório


O Laboratório de Biotecnologia em Modelos Experimentais da Universidade Federal de Uberlândia (Labme/UFU) realizou, pela primeira vez na instituição, a transferência embrionária de animais de laboratório. Com dois anos de dedicação, o êxito no nascimento dos animais é um passo importante para a criação de um banco de embriões de camundongos que está sendo desenvolvido pelo laboratório dentro dos princípios éticos da experimentação animal.

A pesquisa tem sido realizada pela pós-doutoranda Flávia Batista, com coordenação de Murilo Vieira, médico veterinário e diretor de Pesquisa da UFU. O Labme faz parte da Rede Mineira de Biotecnologia em Modelos Experimentais (RMBME), composta por várias universidades de Minas Gerais, dentre elas, a UFU, a Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a Universidade Federal de Alfenas (Unifal).

Ao todo, nasceram oito filhotes de duas fêmeas diferentes da espécie Mus musculus, três no dia 10/04 e cinco no dia 12/05. “Se a gente estivesse falando de animais de produção, isso possivelmente não teria nada de inédito, por ser uma prática zootécnica muito comum. O diferencial dos animais de laboratório é que dentro da espécie, nós temos infinitas linhagens e grande parte delas são geneticamente modificadas. Quando fazemos uma modificação genética, o animal pode ter comportamentos ou demandas totalmente diferentes, o que se torna uma dificuldade maior”, explica Vieira.

Flávia mostrando caixas com o animais
Ideal é utilizar os embriões ao invés de manter os animais vivos em laboratório (Foto: Thuanne Santos)

Outra dificuldade ao se pensar na área laboratorial é que a maioria dos animais utilizados como modelos experimentais são importados, o que gera um custo alto e logística mais complicada. Isso pode ser resolvido com um banco de embriões, como o que está sendo desenvolvido pelos pesquisadores. “Estamos contribuindo para os princípios éticos da experimentação animal, porque animais que são utilizados em pesquisa não são utilizados constantemente. Às vezes, ficamos dois, três anos sem utilizar um determinado animal. Quando se consegue congelar e descongelar esse embrião, não precisamos manter animais no laboratório. Além disso, garantimos a qualidade dos animais que são utilizados em pesquisa, porque os camundongos se reproduzem muito rápido e isso favorece mutações espontâneas. Com o banco conseguimos manter embriões sem a mutação”, esclarece Batista.

Uma segunda vantagem de se fazer transferência cirúrgica é a rederivação, que é a limpeza desses animais caso ocorra alguma contaminação por algum patógeno que não atravesse a barreira transplacentária. Ou seja, quando a doença não chega no feto, é possível retirar os embriões desses animais que estão contaminados e fazer a transferência cirúrgica para uma nova fêmea saudável. A pesquisadora explica que “ao se deixar o animal nascer, a doença é passada, mas ao tirar o embrião antes do nascimento e colocá-lo em outra fêmea, chamada de receptora, ocorre a ‘limpeza’ do animal. Ao nascer, é feito um controle sanitário para saber se realmente estão saudáveis”.

Flávia segurando camundongo
Pesquisadores tentarão congelar embriões de 18 linhagens diferentes de 'Mus musculus' (Foto: Túlio Daniel)

Histórico

2008 é um marco no Brasil para a Ciência em Animais de Laboratório, graças à criação da Lei Arouca que estabelece procedimentos para o uso científico de animais. A UFU possui a Rede de Biotério de Roedores (Rebir), ligada à Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (Propp), que foi criada em 2018. Desde então, diversas melhorias têm sido feitas tanto na parte de infraestrutura quanto de profissionais.

Em 2021, a Rede Mineira de Biotecnologia em Modelos Experimentais foi criada por meio de um projeto aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). Sob coordenação de Vieira e, consequentemente, da UFU, os objetivos da rede são melhorar e disponibilizar modelos experimentais de qualidade e criar um banco de embriões compartilhado entre essas instituições, o que favorece aspectos econômicos, padronização para que os experimentos tenham maior reprodutibilidade e repetibilidade, e atendimento aos princípios éticos da experimentação animal com a redução de animais excedentes.

Flávia e Murilo dando entrevista
Com o êxito da transferência embrionária, pesquisadores irão trabalhar em modelos experimentais mais eficientes (Foto: Thuanne Santos)

Em 2022, Batista visitou a Fundação Oswaldo Cruz, com intermédio de Alessandra Ramos, médica veterinária e tecnologista da instituição, onde pôde aprender de perto as técnicas que hoje são utilizadas na UFU. No ano seguinte, foi inaugurado oficialmente o Labme no Campus Umuarama. “Gostaria de deixar claro que, assim como a Alessandra sempre me disse, não bastou apenas uma semana de treinamento, precisei retornar e dedicar muitas horas de pesquisa e estudo, começar a criar os primeiros animais e fazer os primeiros protocolos básicos. A partir de então, começamos a fazer as primeiras transferências. Muitas não deram certo, mas agora tivemos o êxito graças a uma equipe muito colaborativa”, completa a pós-doutoranda.

Por fim, Vieira explica que o nascimento dos camundongos por transferência embrionária é o primeiro passo para a renovação do projeto da rede em 2025. “Agora vamos avançar no sentido de fazer as modificações genéticas, porque toda a parte de coleta de embriões, congelamento, descongelamento, está padronizada. Animais já estão nascendo e agora passamos para o próximo passo que é inserir genes de humanos, por exemplo, ou deletar algum gene de camundongo e conseguir fazer modelos experimentais mais eficientes”, finaliza o coordenador.

Informações UFU

Imagem Thuanne Santos